Sábado, 13 de abril de 2013, sou despertado pelo brother Vinicius Goulart me agitando para um highline. Fizemos algumas compras, passamos na casa dele, pegamos os equipamentos e partimos pra encontrar com o Rafael Bridi e o Pedro que já haviam recomeçado o trampo de fazer furos na rocha – no final de semana anterior esse trampo já tinha sido começado pelo Vinicius e Rafael no punho mesmo.

Partimos, quase no meio do dia, para a Praia do Matadeiro, onde começa a trilha pra Lagoinha do Leste. O pico do highline fica entre essas duas praias, em um costão de pedras conhecido como Toca da Baleia. Eu totalmente despreparado, com meu par de chinelos, bermuda e camiseta, encarei cerca de uma hora de trilha entre mata fechada, pedras, raízes e riachos até chegarmos na garganta onde iríamos atravessar a linha.

Setor Toca da Baleia

O tipo de pedra que lidamos era muito cortante, porém havia facilidade em chegar ao outro lado da garganta caminhando, facilitando o acesso à ancoragem. Com isso, a preocupação maior seria com a proteção de todo o equipamento, quanto à abrasão na rocha. Para evitar isso, usamos mangueiras de incêndio como precaução.

Obs: eu ainda tive a preocupação de proteger meus pés, pois meu calçado arrebentara logo no início da trilha, e já não suportava pisar naquela rocha. Usei então dois pedaços da mangueira de incêndio enrolados nos pés e amarrados com fita. Foi hilário, vesti a sandália da humildade por não ter usado calçados adequados.

Rafa furando a pedra para receber a ancoragem da fita

Rafa furando a pedra para receber a ancoragem da fita

Detalhe da ancoragem fixa. Fita e corda de backup com fixações independentes.

Detalhe da ancoragem fixa. Fita e corda de backup com fixações independentes.

Terminamos toda a montagem da linha no fim de tarde depois de bastante trabalho. Neste highline, lidamos com dois tipos de ancoragens, uma natural e outra fixa. Na primeira, abraçamos a rocha algumas vezes com corda estática isolada com nós. Na outra extremidade, usamos bolts de fixação em rocha, semelhantes aos da escalada esportiva, com o cuidado de serem de inox – lidamos com muita corrosão no litoral. Depois de montada toda a ancoragem, montamos a fita já com sistema de tensão e a corda de backup, sempre ancoradas independentes.

Unindo a fita e a corda de backup

Unindo a fita e a corda de backup

O ritual de término da montagem da fita começa quando alguém percorre toda a fita por baixo, já com a cadeirinha, e a une com a corda de backup. Após cumprir o ritual, o Rafa foi o primeiro a tentar atravessar. Chegou até o meio, mas as rajadas desse primeiro dia de vento sul e a falta de claridade o impediram de cadenar naquele instante. O Vinicius entra na fita em seguida, já quase sem luz, consegue dar alguns passos e cai, de leash fall. Agora sim, ancoragens testadas e aprovadas. Ele persiste e tenta atravessar, sem êxito. Seria difícil uma cadena pra nós, querendo ou não somos iniciantes nesse esporte tão novo no Brasil, e nessas situações de cansaço, fome, frio, tendo que lidar com um vento fora do comum. Ficamos sem cadenar no sábado.

A noite começava a cair e eu não queria andar naquele momento. Com a galera já na movimentação para desmontar a linha e arrumar tudo pra ir embora, eu decidi: queria dormir no pico e aproveitar o domingo na linha. O problema é que eu não havia me preparado em nada pra isso, nada mesmo. Nem roupas direito eu tinha (meu chinelo mesmo já tinha ido pro espaço), quem dirá barraca ou saco de dormir. O vento soprava forte e noite se aproximava. Os caras quando acreditaram que eu ficaria mesmo, me deram uma calça, luvas, uma blusa, e o que tinham de mantimentos na mochila: algumas frutas, um pacote de biscoito, meia barra de chocolate alguns bombons e água. O Vinicius se comprometeu em voltar no outro dia, para andar e ajudar a carregar todo equipo na volta, me confortando um pouco. O Rafa e o pedro não iriam voltar, tinham compromissos.
Quando eles saíram, já era noite e ali estava eu. Acostumado com perrengues, nem me preocupei, tratei de me ajeitar no lugar menos desconfortável possível e, em pouco tempo, já tive a primeira grande recompensa pela decisão de ficar ali. Um céu fora do comum se revelou sobre mim, limpo e cheio de estrelas. O vento continuava soprando forte no decorrer da noite, que foi longa. Ora deslumbrando a paisagem, ora comendo compulsivamente, ora me esfregando pra aguentar o frio. Segui acomodando o corpo até o alvorecer, lindo, no horizonte, com o barulho do mar batendo nas pedras. Mal saíam as rugas da testa pela noite mal dormida e eu já começava a me preparar pra entrar na linha pela primeira vez.

Linha Baleia Franca, a primeira highline de Florianópolis

Oito guiado, fechado na cintura, entro na linha antes do sol nascer. O medo era inevitável. Primeiro rolê, fita frouxa, três quedas. Fui até o outro lado, pregando algumas fitas que soltaram e parto pro drop. Passo por passo, sem pressa, aproveitando, consigo atravessar, foi uma sensação de felicidade sem igual. Tentei ligar pra alguém e compartilhar, mas nem consegui. O dia só estava começando, comi algo, arrumei minhas coisas na sombra e me preparava pra aguentar o dia no highline. Entre cochilos, laricas e rolês na fita o brother chega, já me dando uma bota de presente. Andamos até o fim de tarde com cadenas, vacas, gritos de emoção e risadas, muita vibe boa.

Fim de tarde, desmontamos, agradecemos a mãe natureza pelo lugar que ela nos proporcionou e partimos. Na noite seguinte, dormi mais de 12 horas seguidas.

Fim de tarde no costão

O que rolou nos dias que se seguiram, após a montagem dessa linha, está no vídeo abaixo – produzido e editado pelo amigo Rodrigo Ferrari:

About The Author

Mineiro tradicionalista, nascido em Piumhi, criado em Belo Horizonte e recém morador de Florianópolis. Amante do pão de queijo e mais ainda de aventuras. Vive atualmente do alpinismo industrial. No slackline, esporte favorito, é onde encontra equilíbrio e foco pra seguir a vida. Bike, skate, boulder e surf matam sua fome de adrenalina.

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3 Responses

  1. Thaynan França

    pode cre, foi muito trabalho duro mais no final valeu muito, massa mesmo ler esse texto com essa trip de vcs, principalmente, quem dormiu na rocha heheehhe.

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  2. Diego Marques

    Parabéns, logo que ter todo meu equipamento vou lá, é aqui perto de casa, gratidão em compartilhar tais informações muito importante para alguém que está loco para iniciar no highline!!

    Responder

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