Cada vez mais pessoas se interessam por esse esporte que proporciona uma sensação única de felicidade. Mas você sabe do que estamos falando?

por: Rita Birindelli

Foi em Araguari, cidade do estado de Minas Gerais, próxima a Uberlândia, que saltei de BASE Jump pela primeira vez. Pulei de uma ponte férrea, com aproximadamente 70 metros de altura, munida de coragem e do velame que salvaria minha vida depois de viver um dos momentos mais intensos. Em tão poucos segundos, consegui me sentir por inteiro como nunca antes havia sentido.

Rita – Pedra da Onça ES

Ao pular de algum lugar para o nada, eu sinto como se o tempo parasse. Um segundo vira uma eternidade e nesse momento, me sinto viva por inteiro, sinto cada pequeno pedaço de mim. É inacreditável quão fantástica e intensa pode ser essa sensação, você pode sentir o amor dentro de você, em todos os seus poros. Eu acho que você consegue atingir outra consciência, algo além da nossa compreensão.

O seu corpo acredita que vai morrer e ele tenta de todas as maneiras te avisar desse perigo, mas contrariando o aviso, sua cabeça diz que tudo vai dar certo. É uma briga interna, uma fantástica briga entre você e você. Às vezes o seu corpo vence, e quando isso acontece você dá meia volta e agradece por sua decisão, mas quando sua mente vence… Ah! Você sente tudo isso intensamente! Eu realmente me sinto abençoada por poder ter isso!

Mas a benção não é resultado apenas de coragem e um pouco de loucura, é preciso muita informação antes. Em Araguari eu estava acompanhada do Base jumper Ruy Fernandes, que se tornou meu mentor. Acompanhei muitos saltos sem pular, aprendi como dobrar o equipamento para cada tipo de salto, e ainda não sei tudo.

Rita – Antena em SP

Jump o que?

O BASE Jump consiste, geralmente, em saltos de objetos fixos. A palavra BASE é um acrônimo das iniciais, em inglês, dos objetos comumente usados para esses salto: Building (Prédio), Antenna (Antena), Span (Ponte; Vão livre) e Earth (Formações Geológicas). O equipamento utilizado para a prática é próprio para essa finalidade e é diferente do equipamento de paraquedismo, apesar de ambos usarem o que chamamos de velame (tecido estruturado que normalmente é chamado de paraquedas, e que na verdade é somente uma de suas partes).

Esse esporte exige de seu praticante um profundo conhecimento sobre seu equipamento, sobre seu funcionamento e sobre os possíveis tipos de set-up (preparação, ajustes, etc), pois na maioria das vezes é o atleta que o manuseará e a margem para erros é extremamente pequena. No paraquedismo o conhecimento sobre o equipamento é também essencial, porém ele pode ser um pouco mais superficial sem que isso prejudique a segurança do esporte.

Ruy

De onde eu pulo?

Não existe no Brasil regulamentação para os saltos de BASE, não existe uma federação, ou um código esportivo como existe no paraquedismo. Por onde começar? A quem procurar? Quais são os pré-requisitos? São perguntas que o interessado no esporte terá que responder quase que sozinho.

No Brasil existe apenas um curso do esporte e ele é ministrado no Rio Grande do Sul. Você pode, também, procurar o que chamamos de mentor, um Base Jumper experiente que o ensinará e o acompanhará nos seus primeiros passos, como o Ruy Fernandes me ajudou.

Ruy e Cokão

Para admissão na maioria dos cursos de BASE são exigidos pelo menos 100 saltos de paraquedismo, em alguns lugares essa exigência chega a 300 saltos. Mas antes mesmo da experiência, acho importante o atleta ter consciência de algumas questões que o risco desse esporte implica.
Esse é um esporte que poderá lhe proporcionar sensações únicas, porém, junto a essas sensações, está agregada uma grande carga de responsabilidade. A pessoa precisa se reconhecer no esporte. Saber se tem perfil e habilidades técnicas para prática. É preciso estar preparado para aceitar as conseqüências de eventuais acidentes e deixar claro para as pessoas que te amam e que você gosta que essa a tua escolha. Essas são premissas para estar tranquilo e poder aproveitar a experiência que o salto irá te propor.

Ruy – Grécia

Quando me apaixonei pelo BASE Jump

Desde que comecei no paraquedismo, o BASE despertou minha curiosidade. Meu primeiro contato foi quando conheci alguns BASE Jumpers na área de salto de paraquedismo que frequento em Boituva, interior de São Paulo. Conversei muito sobre os saltos, sobre como começar, sobre as sensações e as responsabilidades, até que um dia recebi um convite para acompanhar um salto e aceitei.

Viajamos cerca de 3 horas até a cidade de São Bento do Sapucaí (SP). A viagem foi ótima, cheia de dúvidas e expectativas, foram horas em ótima companhia, muitas risadas e a minha imaginação a mil! O lugar em que chegamos é mágico, com uma energia fantástica. Tudo tranquilo, mas chega a hora de partir para o salto, e aí tudo certo? SIM!

Quase. Para chegar até o Exit Point (Ponto de Saída para os saltos de BASE Jump) é necessário subir por uma trilha, uma caminhada de aproximadamente 1 hora, caminhada leve, se eu não estivesse fora de forma.

Rita – Pedra da Onça ES

Estávamos perto da hora do pôr do sol e como estava em um ritmo lento não conseguiria retornar antes de escurecer, achamos melhor que eu ficasse e os dois amigos seguiram para o salto. Ouço um estrondo! São eles! Ah! Que lindo! Os dois velames abertos no céu! Mas que longe, também… Acompanhei o pouso, o retorno dos jumpers e a dobragem dos equipamentos.

Ainda muito decepcionada por não ter acompanhado tão de perto como gostaria. Estava decidida, não desistiria de vê-los saltando lá de cima no dia seguinte. E assim foi, chegando no topo aguardamos por algumas horas o vento passar e voilà! Aquelas duas pessoas voando como pássaros, foi uma sensação inexplicável, o tempo parou por alguns segundos na minha cabeça até ouvir novamente aquele forte barulho da abertura dos velames! Estava embasbacada. Voltei pela trilha com aquela imagem e a sensação ainda percorrendo o meu corpo e a minha mente. Ali decidi que saltaria! Ali literalmente cai de amores por esse esporte.

TANTO MESES DEPOIS ESTAVA SOBRE A PONTE FÉRREA, EM ARAGUARI, PRONTA PARA SALTAR

Rita

 

Salto da Pedra do Baú em São Bento de Sapucaí – SP
 
 

Meus dois primeiros saltos:
 
 

Salto de Antena:
 
 

Entrevista com André, instrutor de BASE Jump no Sul do Brasil

Nome: André Sementile
Idade: 34 anos
Profissão: Engenheiro
Esportes: BASE jump, Parapente, Mountain Bike,
Competições: Bike (há muito tempo atrás)

MC: Qual a sua relação com o BASE Jump?
André: Medo, ansiedade, gratidao, curiosidade, vontade. Tudo junto e misturado (risos).

MC: Como e porque começou no esporte?
A: Estava entediado com o skydive e vi alguns vídeos na internet. Estava meio enjoado da minha vida também, então decidi ficar 6 meses nos EUA só saltando e aprendendo. Larguei o emprego, a namorada, o apartamento , vendi tudo e fui. Morava num camping, em uma barraca, e saltava todo santo dia. Foi um tempo muito feliz.

MC: Há quanto tempo pratica? Quantos saltos?
A: Desde 1 de maio de 2005. 530 jumps até agora, 73 objetos diferentes.

MC: Quando e porque optou por ministrar o curso?
A: Em 2005, pois aqui no Brasil o pessoal tinha muita vontade de aprender e ninguém para ensinar. Eu tinha 200 saltos na época, falei com a Marta, sócia da APEX base, e ela me disse: vai fundo!

MC: Quais os pré-requisitos para ingressar no curso?
A: 200 skydives, saber dobrar paraquedas principal, e ter uma boa atitude. Digo, não ser uma pessoa lerda. O base jump não te dá muito tempo pra pensar, a reação tem que ser imediata.

MC: Quanto tempo e o que é abordado no curso?
A: O curso não acaba nunca, eu até hoje estou aprendendo (risos). Fazemos um final de semana em uma ponte, lá você vai começar a praticar e ter uma ideia do que você precisa aprender e desenvolver pra saltar de outros objetos. o desafio principal do curso é fazer o aluno aprender a raciocinar como base jumper e não simplesmente passar uma receita de bolo pronta como “dobra assim”, “faz ali” , “vira aqui” e acaba lá.

MC: Existe uma aprovação nesse curso? Se sim, quais os critérios?
A: Não existe, cada um sabe o seu limite. Muitos confiam a mim a sua própria evolução no esporte, e eu tento “customizar” isso. Afinal, somos diferentes e cada um evolui de um jeito, em uma velocidade. Também existem diversos diferentes interesses no esporte. Tem gente que só quer se mostrar doidão, outros querem realmente aprender, alguns querem se especializar em saltos altos e wing suit, outros preferem saltos baixos… Enfim, o esporte é muito aberto.

MC: Tem ideia de quantos alunos foram formados por você?
A: 68 até hoje.

MC: Qual, mais ou menos, é o valor do investimento entre o curso e os equipamentos?
A: Mil reais o curso, mais o final de semana na ponte, que custa mais uns 600-800. O equipamento todo, novo, custa uns 3.500 U$.

About The Author

28 anos, Curitibana de criação, nasceu em São Paulo capital e há três anos mora em Sorocaba, interior. Apaixonada por aventura, pelo BASE Jump e o Paraquedismo. Escalada, Skate, Slack e Highline também fazem sua cabeça, mas acha que o que realmente vale a pena é a descoberta de novos lugares, novas sensações e as boas companhias que essas atividades proporcionam.

Related Posts

24 Responses

  1. Gisele Mourão Oliveira

    Muito legal Rita sua descrição sobre o q se sente com o BASE, nunca pratiquei, mas consegui visualizar um pouquinho do q é o BASE nesse trecho: ''Seu corpo acredita que você vai morrer e ele tenta de todas as maneiras te avisar desse perigo mas, contrariando seu corpo, sua cabeça diz que tudo vai dar certo.'' Excelente!

    Responder
  2. Adão Lupim

    Que fooooda Ritaa.. cada salto que eu vejo de voces na onça e cada video que eu acompanho de vcs em outros lugares eu fico com mais vontade de aprendeeer!!

    Responder
  3. Willian da Rocha

    Rita, fiquei impressionado com esse texto, me imaginei escrevendo ele um dia! haha
    Depois que eu pulei de paraquedas a minha maior vontade é fazer isso, mas pelo que eu vi são necessários vários saltos para começar no BASE.
    Eu queria te perguntar como você fez pra conseguir essa quantidade de saltos, porque, pelo menos aqui, os valores de salto são absurdos, tentei calcular e quase perdi a vontade hahaha
    Aqui os preços dos saltos (de paraquedas mesmo) estão entre R$ 200 e R$ 300, para conseguir a quantidade de 100 saltos eu ia gastar R$ 20.000 no mínimo! =O
    Você fez os saltos dessa forma, pagando toda vez, até atingir os 100 saltos? Ou tem outra forma de alcançar a meta? Rs

    Beijos.

    Responder
  4. Fernando Amaral

    Está nos planos, o problema é fazer 300 saltos de paraquedas antes. Por enquanto, vou amando a montanha rs…Mas está na lista de sonhos …rs Parabéns RITA!!!

    Responder
  5. Bruno Angelo

    Base Jump e Wingsuit, esta no meus planos, o problema é 300 de paraquedismo, infelizmente vou demorar um bom tempo pra praticar!

    Responder
  6. André Cardoso

    Rita …
    Muito obrigado pelas dicas e por expor seus sentimentos dessa maneira, eu e um amigo somos loucos pra começar o paraquedismo, mas já estamos ansiosos por base jump e wingsuit…..

    Responder
  7. diego

    pra comprar o paraquedas precisa de algum documento ou autorização ?… quero comprar e já pular

    Responder
    • Rita

      Rodrigo Almeida (Cricket) no Rio e Ruy Fernandes (São Paulo) pode procurar eles no facebook 😉

      Responder

Leave a Reply

Your email address will not be published.