Encarar a subida de um vulcão não é nada fácil, ainda mais quando ele está cuspindo lava, rochas incandescentes, fumaça tóxica, etc. Mas todo esse cenário não foi suficiente para tirar essa ideia da cabeça de alguém que havia recebido o “chamado” do Tungurahua.

O aventureiro que encara os vulcões ativos é o paulista Gabriel, mais conhecido como Mochileiro Peregrino. Ele já viajou boa parte do Brasil, pedindo caronas e dormindo em qualquer lugar onde tivesse uma cama disponível. Já subiu montanhas debaixo de tempestade, atravessou desertos, teve seu corpo quase congelado durante uma tempestade de gelo, presenciou avalanches, entre outras aventuras. Mas a sua mais nova fascinação é subir vulcões ativos! E é nisso que ele pretende investir nas próximas aventuras!

Mochileiro Peregrino

Mochileiro Peregrino desbravando as paisagens do Brasil – Foto: MP

Os riscos de subir vulcões

Possivelmente você esteja se perguntando: “e quais são os reais riscos de subir um vulcão ativo?” A resposta é: “depende das características e da atividade de cada um”. O que acontece é que os vulcões não funcionam como um reloginho e é justamente aí que mora o grande risco: é impossível saber exatamente o que pode acontecer se você estiver subindo nele.

Mas, entre os riscos possíveis, estão:

  • Ser atingido por rochas incandescentes
  • Inalar gases venenosos
  • Ser coberto por cinzas vulcânicas
  • E, na pior das hipóteses, você pode ser atingido por fluxos piroclásticos, que é uma espécie de nuvem gases, poeira e rochas, que se desloca pela encosta do vulcão devastando tudo que encontra pela frente. Só os gases quentes (que podem chegar a 800ºC) e a velocidade do deslocamento (de até 160 km/h) já seriam letais.
  •  Tudo isso sem falar na possibilidade de o aventureiro se deparar com um fluxo de lava. Daí, também: ferrou!
Fluxo piroclástico devastando a encosta do Vulcão Mayon, nas Filipinas

Fluxo piroclástico devastando a encosta do Vulcão Mayon, nas Filipinas

A experiência de encarar o primeiro vulcão ativo

Mas nenhum dos riscos foi empecilho para o Mochileiro. No final de 2011, em uma viagem ao Equador, ele sentiu uma forte atração pelo Vulcão Tungurahua, que fica na região central do país, junto da cidade de Baños (que inclusive já teve que ser evacuada devido às ameaças do vulcão). Por ser um vulcão ativo, ele é expressamente proibido de ser escalado. Até mesmo as pessoas que têm algum conhecimento sobre o local evitam dar informações devido aos perigos existentes. Mas para o nosso aventureiro nada mais importava, o vulcão tinha “chamado” e estava obstinado a subir o máximo possível rumo à cratera do Tungurahua.

Cidade de Baños, ao lado do Vulcão Tungurahua

Cidade de Baños, ao lado do Vulcão Tungurahua

Vulcão Tungurahua em um dia de "calmaria"

Vulcão Tungurahua em um dia de “calmaria”

Antes de arriscar a perigosa subida, o Mochileiro Peregrino precisava levantar o máximo de informações possível e para isso, decidiu passar alguns dias em Baños, em busca de uma pessoa chave, que poderia lhe ajudar. Quando comentava sobre seu projeto de subir o vulcão as pessoas o desencorajavam, diziam que ele estava louco e que iria morrer no meio do caminho como tantos outros que tentaram a façanha e nunca mais voltaram. Ainda assim, ele se manteve firme na decisão e depois de conseguir todas as informações necessárias, ele partiu para sua jornada rumo à cratera.

“À medida que subia, sozinho pela encosta, podia ouvir o forte barulho das explosões vulcânicas que me acompanhavam o tempo todo.

No meio do caminho ele encontrou um antigo refúgio, abandonado, parou um pouco, descansou  mas logo resolveu subir um pouco mais e fazer uma tentativa de chegar mais mais próximo do cume.

“Mas, de repente,  fui surpreendido com uma forte explosão e cerca de 1 ou 2 minutos depois uma pedra “cuspida” da cratera veio em minha direção, rapidamente me abriguei em baixo de raízes de árvore. Eu estava chegando cada vez mais próximo da cratera e muitas cinzas estavam sendo expelidas, o que dificultava minha respiração, foi um momento crítico, pois naquela hora, fiquei coberto de cinzas.”

Mochileiro Peregrino em meio às cinzas

Mochileiro Peregrino em meio às cinzas – Foto: MP

Infelizmente, devido às condições de fumaça, poeira e gases, o vulcão não permitiu que ele se aproximasse mais do cume e acabou optando por voltar para passar a noite no refúgio. Não que fosse possível dormir naquele local ou naquela situação, mas era preciso descansar o corpo e esperar amanhecer para continuar. Sente a descrição do próprio Mochileiro sobre a experiência noturna no vulcão:

“A terra treme por completo, igual terremoto e pedras pegando fogo cruzam o ar. É possível escutar a lava descendo o vulcão, há muito fogo sendo cuspido, toneladas de fumaça são lançadas pelo céu e atingem quilômetros de altura!!! O som das explosões parecem bombas em um cenário de guerra, é ensurdecedor e também é possível ouvir as pedras sendo arremessadas a quilômetros de distância, muitas vezes produzindo um som parecido com um maçarico, (lógico umas 100 mil vezes mais forte, no mínimo). É um cenário diferente de tudo o que se possa imaginar! Ao todo foram 19 horas sem dormir para essa escalada. Durante a noite, a escuridão era total, porém a lava que saía da cratera criava um cenário incrível, muitas vezes parecia que fogos de artifícios estavam sendo lançados, e as pedras pegando fogo pareciam cometa. Eu nunca esquecerei de tudo que meus olhos presenciaram nessa experiência!”

Vulcão Tungurahua em seus momentos de fúria

Vulcão Tungurahua em seus momentos de fúria

Reconhecer os limites é importante!

Após passar a noite convivendo com o ambiente hostil do vulcão, sentindo ele tremer, jorrar fogo, fumaça e gases, finalmente amanheceu, sem que ele tivesse sequer conseguido fechar os olhos.

“Pela manhã, para fechar a experiência, uma surpresa final: uma grande explosão, a maior ocorrida enquanto estava lá, derramou muita lava pelo vulcão e a vista foi incrível! E pra finalizar mesmo, novamente toneladas de fumaça foram arremessadas ao ar, só que dessa vez o fogo se mesclava com as cinzas vulcânicas, provocando uma gigantesca coluna avermelhada, deixando eu de boca aberta e dessa vez, com certa sensação de medo, pois o chão tremia demais e não parava de sair fumaça. Aquela era a hora exata de dizer adeus ao Tungurahua.”

Coluna avermelhada de cinzas

Coluna avermelhada de cinzas – Foto: MP

De volta a Baños, “são e salvo” ele encontrou um cenário bem diferente do que havia conhecido antes de sair da cidade. Não era só ele que estava todo coberto de cinzas! A atividade vulcânica da noite tinha encoberto também a cidade com uma camada de cinzas. As aulas estavam suspensas, o comércio fechado e as pessoas usavam máscaras para respirar melhor. Era o Tungurahua, mais uma vez mostrando que é ele quem dita a vida de quem mora ao seu redor.

Baños encoberta de cinza após mais uma erupção

Baños encoberta de cinza após mais uma erupção

Planos para outros vulcões? SIM!

E esse foi o único vulcão que ele subiu?
Sim, até o momento sim, mas ele tem planos ambiciosos! Hoje em dia o Mochileiro vive pesquisando vulcões e acompanhando a atividade vulcânica ao redor do mundo. Está nos seus planos para os próximos anos subir os vulcões Fuego, Santiaguito e Pacaya, na Guatemala, o Arenal e o Turrialba, na Costa Rica e o San Pedro, no Chile. Depois destes planos Latino Americanos, outro grande sonho dele é chegar no vulcão Erta Ale, na Etiópia.

E além de subir vulcões, ele também gosta de escrever e em breve publicará o livro A senda e o aprendizado do Mochileiro Peregrino, onde ele conta suas experiências pessoais, aventuras e viagens.

Mochileiro Peregrino: mochileiroperegrino@gmail.com

About The Author

Porto Alegrense, formada em turismo, amante da natureza e de qualquer aventura que apareça pela frente, desde que não tenha nenhum boi no meio do caminho. Seu objetivo de vida é perambular pelo mundo com uma mochila nas costas, uma máquina na mão e um bloquinho a tiracolo, registrando tudo que vê pela frente para depois compartilhar com outros aventureiros.

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13 Responses

  1. Mochileiro Peregrino

    Quem se interessar pela minha obra " A SENDA E O APRENDIZADO DO MOCHILEIRO PEREGRINO ". Podera adquirir o livro pelo site http://www.mochileiroperegrino.com

    A autobiografia de um viajante solitário que se aventura por
    cânions, montanhas, cavernas, geleiras e afins, a natureza na
    sua forma mais intocável. Escalando até mesmo um vulcão em
    plena erupção em um terreno completamente hostil e implacável.
    Um jovem sem lembranças de sua infância, que há anos não tem
    contato com sua família. Hospedando?se em casas de pessoas que
    encontra pelo caminho, fazendo com que, ao decorrer de suas
    viagens, pessoas se emocionem com seus escritos e seu modo de
    viver. Seu caminho percorrido em meio à busca pelo
    desconhecido e a vontade de manter?se vivo. Mais que uma
    simples aventura, uma lição de vida.

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