por Luiz Felipe Buff

Dar início a uma expedição grande não é fácil. Ainda mais quando tudo que você é e tem na vida está em jogo. Várias são as razões pelas quais as pessoas realizam expedições. Pelo desafio, pela dificuldade, pela solidão, pela beleza do lugar, para ser o primeiro, para aprender, para ser, para rir, para chorar…

Antes da partida.

Antes da partida.

Algumas expedições têm objetivos bem definidos, claros e simples. O sucesso de uma empreitada pode estar na simplicidade de seu objetivo. Quando Shackleton não pôde mais continuar com sua expedição e cruzar o continente Antártico a pé, ele mudou o objetivo da expedição e disse em voz alta aos seus: “Se não posso mais cruzar o continente Antártico a pé, vou levar meus homens para casa com vida.” E assim o fez, numa incrível demonstração de clareza, força de vontade e espírito e, mais que tudo, com uma capacidade de liderança a ser admirada e estudada academicamente até os dias de hoje.
– Veja mais em A Incrível Viagem de Sir Ernest Shackleton –

Quando me perguntavam o objetivo de remar a costa do Brasil eu, por outro lado, nunca soube responder com essa simplicidade e clareza. Pior, passava minutos e minutos descrevendo o que é que essa viagem seria para mim. Lembrava-me de quando era adolescente e me perguntavam o que eu queria ser da vida. Dava até frio na espinha. Por que tenho eu que responder o que quero ser da vida com 15 anos de idade? Meu medo era me colocar numa prisão e o futuro ser algo que se vê numa luneta e não a infinidade de possibilidades incríveis quando se aceita que o futuro e nós mesmos podemos mudar. Mas sabia que para o sucesso de minha empreitada, tinha que ter um objetivo claro. Pois é, vou desapontar vocês, mas não tenho um objetivo claro. Quero conhecer, interagir, viver, aprender, crescer, remar. O kayak e a vida ao ar livre oferecem uma oportunidade incrível de contato com o mundo, com o novo, consigo mesmo.

E cá estou eu, depois de um mês e vinte dias vivendo essa experiência incrível.

Chegando no Farol Verga.

Chegando no Farol Verga.

Foi muito tumultuada a fase de preparação. Muitos problemas pessoais e ainda a loucura toda de lutar por patrocínio, ou, se entregar a uma aventura onde o único dono e responsável seria eu mesmo. Acabou que o fracasso deu certo. Não consegui patrocínios, e hoje estou feliz. Os desafios, erros, acertos, sucessos e fracassos das minhas decisões cabem somente a mim e com eles eu poderei aprender e crescer.

A partida

Do Chuí saí remando no dia 06 de janeiro, depois de esperar 5 dias pelas melhoras nas condições de mar e tempo. A solidão atacou, a ansiedade veio forte. Remar a Praia do Cassino foi difícil, foi lindo, glorioso. Adorei, mas não consegui terminar a praia toda, ficou faltando 40km. Decidi seguir Norte por uma rota alternativa, conhecida pelos locais como Mar de Dentro e me toquei pela Lagoa dos Patos, partindo de carona no veleiro Wahoo I, acompanhado pelo Enrolex.

O encontro com o cicloturista Fabio, na praia do Casino. Eu para o norte e ele para o sul.

O encontro com o cicloturista Fabio, na praia do Casino. Eu para o norte e ele para o sul.

Saindo do Canal São Gonçalo, entrando na Lagoa dos Patos.

Saindo do Canal São Gonçalo, entrando na Lagoa dos Patos.

Passamos três dias num grupo de amigos, remando, velejando e nos divertindo. Do Bojuru, segui remando até Mostardas. Parei, fui buscar no aeroporto de Porto Alegre a minha amiga Isabelle Lafertty, dos EUA, que veio remar comigo por 12 dias. Seguimos remando de Mostardas e no segundo dia de remada um vento NE de 30 nós forçou-nos a buscar alternativas e conseguimos uma carona de caminhão até Palmares do Sul. De lá, seguimos remando pela rota das Lagoas, começando pela Lagoa da Porteira e indo até a Lagoa Itapeva, até Torres. Todas essas Lagoas são ligadas por canais, escondidos pelo junco e seguem paralelamente a costa, separadas do mar apenas por dunas de areia branca.

Partindo cedo da Lagoa dos Quadros. Linda manhã, horas depois vento forte chuva e corrente contra.

Partindo cedo da Lagoa dos Quadros. Linda manhã, horas depois vento forte chuva e corrente contra.

Acampamento sob a lua.

Acampamento sob a lua.

Chegando em Torres, o amigo Feijão veio nos encontrar e fomos, de carro, para o litoral de Santa Catarina, assim Isa poderia conhecer mais da nossa costa e eu encontrei com a Lelê, minha “marida”, e ficamos uma semana matando a saudade na Praia do Rosa. Depois dessa longa pausa, voltei para o mar, um pouco injuriado, no dia 18/02/2013. Remei de Torres, pelo mar, até Balneário Gaivota, já em Santa Catarina. A previsão não é animadora, e provavelmente ficarei aqui ao menos uma semana, esperando o tempo melhorar.

Casinha do Salva Vidas Bandeira amarela significa atenção ao entrar no mar.

Casinha do Salva Vidas Bandeira amarela significa atenção ao entrar no mar.

Jantando no Camping Gaivotas.

Jantando no Camping Gaivotas.

Daqui pra frente

O saldo desse primeiro trecho é positivo. Apesar de não ter remado alguns trechos e ter pausas mais longas do que eu gostaria, a expedição começou. E segue remando para o Futuro, mesmo quando houve a chance de voltar para trás e refazer. Mas para o futuro é que se vai e sigo mais preocupado com o homem que terminará essa viagem, do que aquele que a começou. Os erros e fracassos seguirão em mim na forma de aprendizado e caráter, as alegrias e os sucessos também. Já nem sei mais separar os opostos tão bem. Quando a gente cresce, percebemos que tudo uma coisa só. Estou feliz, mais forte, mais humilde, mais queimado também e com alguns calos nas mãos e no espírito.
Que todos tenham a chance na vida de viver algo assim.

Luiz Felipe Buff

Tales e Isadora. Crianças alegres sempre nos enchem de força o espírito e nos fazem sentir aquela leveza dos puros.

Tales e Isadora. Crianças alegres sempre nos enchem de força o espírito e nos fazem sentir aquela leveza dos puros.

 

– Acesse o site da Sea Kayak Brasil e acompanhe o diário de bordo de Luiz Felipe –

About The Author

Colaboradores que agregam, com sua bagagem de conhecimento e aventura, conteúdo ao site MundoCrux.

Related Posts

3 Responses

  1. José Antônio Torelly Campello

    Pode não estar claro por enquanto a resposta do motivo da aventura, mas é certo que requer força, coragem, espírito aberto e determinação. O futuro responderá os ganhos obtidos. Algo já é antecipado além dos calos nas mãos! Vá em frente amigo, estamos te acompanhando e torcendo pelo teu sucesso nesta expedição

    Responder
  2. Andry Eiryton Miranda Coelho

    SEU CAIAQUE É UM OPIUM AMAZONIA? EU TB TENHO SONHO DE FAZER EXPEDIÇÕES…MAIS CURTAS É CLARO POIS SOU AMADOR…DIFICIL É ESCOLHER O CAIAQUE, QUE TENHA ESTABILIDADE PARA LEVAR BAGAGEM E QUE CORTE BEM AS AGUAS…GANHANDO VELOCIDADE.

    Responder
  3. Rosmari Fadanelli de Almeida

    Posso dizer que sou uma pessoa de grande privilégio, pois tenho o prazer de fazer parte de umas horas nessa expedição.Conhecê-lo juntamente com minha família é uma experiência incrível Felipe!!!!Você pode dizer adeus a sua família e a seus amigos e afastar-se milhas e milhas e, ao mesmo tempo, carregá-los em seu coração, em sua mente, em seu estômago, pois você não apenas vive no mundo, mas o mundo vive em você.Seja feliz em sua expedição, iremos acompanha-lo…..Deus abençõe você!!!!abraços

    Responder

Leave a Reply

Your email address will not be published.