Por Evandro Machado

Participar de uma corrida de expedição não é apenas se inscrever, chegar e correr. A preparação para uma prova expedicionária, com 120 km de percurso, começa muito tempo antes. São treinos longos, preparação psicológica e muita disciplina, até reduzir o ritmo na última semana. A prova era no sábado e não tive dúvidas quando recusei o convite para aquela cerveja boa de sexta-feira. Foco.

Saímos de Curitiba/PR, às 6h30, rumo a Balsa Nova/PR. Viajamos juntos com outros dois colegas, o Pexe e a Michele, que correram na equipe Altiseg na categoria dupla mista. O objetivo era correr em quarteto, mas dividimos em duas duplas devido à falta de outros quartetos para competir.

Depois dos ajustes finais, foi dada a largada, às 9h. Eu o Gargamel começamos pedalando cerca de 18 km, acompanhamos a dupla mista da Altiseg (Pexe e Michele) até a Área de Transição (AT) 1 e chegamos em último, 15 minutos atrás dos lideres. Troca rápida de modalidade para o canioning. Nesse ponto decidimos que cada dupla ia correr a prova no seu ritmo.

Partimos para o canioning de 3 km por um rio com água a altura do joelho. Canioning relativamente fácil, o fundo do rio era de areia, o que dificultava um pouco a progressão. Tínhamos que passar por dois pontos obrigatórios, muitos atletas correram pela margem do rio tentando ganhar tempo e passaram batidos pelos pontos. Muitos retornaram e outros foram penalizados.

Quando chegamos na AT2 para o trekking, fiz uma transição lenta. Plotei os PCs com calma, troquei de tênis e meias e partimos seguindo a linha do trem. Navegação relativamente fácil na primeira metade do trecho, com dois pontos que exigiram atenção. O primeiro cruzava um rio e não dava muitas opções devido ao terreno acidentado. O outro era um PC com uma navegação um pouco mais exigente com um picotador para marcar a passagem. Fizemos muita força nesse trecho e alcançamos duas equipes. Depois de superarmos a tirolesa (feita pelo Gargamel), foram mais alguns quilômetros de trekking. Pegamos um prisma e, entre duas opções de trilhas, escolhemos o caminho mais longo, porém com terreno batido, de fácil corrida e navegação. Com essa escolha ultrapassamos outras duas equipes antes de chegar na AT3 em 5º lugar. Ao todo foram 25 km de trekking e agora era a vez de pegarmos as bikes novamente.

Saindo do AT3, com 60 km de bike pela frente, foi difícil de acompanhar o ritmo do Gargamel, que pedala muito forte. Navegamos bem, só erramos quando passamos direto pelo PC4, porém consertamos rapidamente. Encontramos todas as equipes procurando o PC5 e decidimos seguir em frente, apostando que o PC tivesse sido furtado. Acertamos. Chegamos no PPO3 em 4º, ganhando mais uma posição.

Eu tinha forçado muito na bike e estava passando mal, tive que fazer uma transição lenta, comer muito e recuperar as forças. Por causa disso perdemos uma posição. Porém, saí do PPO recuperado para a segunda parte da bike que entrava na noite. Nesse trecho forçamos a bike novamente e navegamos muito bem, sempre com muita atenção. O desgaste psicológico desse trecho foi compensado pela chegada na AT4 em 1º, às 20h32.

Não para não! Vamo!

Fizemos uma transição rápida, novamente comemos bem, trocamos de roupa para enfrentar os 40 km de remo durante a noite. Decidimos parar para comer a cada 1h30 sendo que planejávamos fazer o trecho em 6h. Exatamente com 3h de remo, o Gargamel precisou se agasalhar devido ao frio e ao sereno que molhava nossas roupas.

Continuamos no remo, seguindo pelo rio da Várzea que é bastante sinuoso. Com 4h de trecho fomos ultrapassados por uma equipe. Chegamos na área de transição em segundo lugar às 2h10 da manhã com muito frio, fome e molhados. Trocamos de roupa, nos alimentamos bem e saímos para os últimos 18 km de trekking.

Iniciamos o trekking com um ritmo constante, mas sentimos o peso da prova e muito sono e não conseguimos manter o ritmo, fomos ultrapassados por mais uma equipe perto do PC8. Subimos uma pequena Serra em meio a plantações e fomos ultrapassados novamente perto do PC9. Ainda tínhamos cerca de 6 km de prova e o rapel para fazer. Buscamos forças e lutamos com o sono.

Chegamos ao rapel às 6h27min (21h27min de prova) da manhã de domingo, fiz o rapel e o Gargamel desceu pelo lado da montanha. Outra equipe nos ultrapassou assim que terminamos o rapel, mas seguimos no mesmo ritmo deles. Faltando 2km para a chegada comentei com o Gagamel.

– Não vou vender mais uma posição fácil. Podemos correr para tentar chegar em 4º lugar.

Pegamos um caminho diferente da outra equipe e corremos para tentar ganhar a posição. Um quilômetro depois estávamos 200 metros à frente. Continuamos correndo. Faltava um quilômetro até a linha de chegada.

Às 7h34min da manhã de domingo, com 22h e 29 minutos de prova, cruzamos a linha de chegada. Com direito a um sprint final.

Sentimento de realização

Encontramos nosso apoio guerreiro, o Mineiro dormindo no carro e comemoramos com um café da manhã na Lapa/PR. Ainda tivemos que esperar o resgate da outra equipe da Altiseg devido a um principio de hipotermia que o Pexe teve no rio e foram forçados a desistir.

Cheguei em casa próximo do meio dia de domingo, muito cansado com muita fome, mas feliz e com sentimento de dever cumprido. Fizemos muita força, trabalhamos em equipe e obtivemos um resultado bem melhor que o esperado.

Agradeço a todos que apoiaram nossa equipe, ao Mineiro que fez o apoio durante a prova, preparou os equipamentos e comprou um x-salada no momento crucial da prova.
Corrida de aventura é isso, só acaba quando termina. Exige força física, técnica em várias modalidades, trabalho em equipe, preparação psicológica e muito planejamento.

PC – Ponto de Controle
PPO – Ponto de Passagem Obrigatória
AT – Área de transição

Valeu! Até a próxima!

Evandro Machado – corredor de aventura desde 2004.

Os mapas da prova
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About The Author

Engenheiro e amante dos esportes ao ar livre. Participa de corridas de aventura desde 2004, campeão paranaense em 2009 e inúmeras participações em provas nos estados do Sul, SP e MG. Pratica surf, mountain bike, corrida, escalada e não consegue ficar parado.

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