Esses dias recebi um convite um tanto quanto inusitado e irrecusável: acompanhar a finalização do mapeamento da corrida de aventura da terceira etapa da Gralha Azul Expedições. Foi nesse dia que vi que o enorme trabalho que dá organizar esse tipo de evento.

A prova estava praticamente toda fechada, faltando apenas alguns detalhes para finalizar toda a organização. Nosso trabalho era simples: ir até uma das trilhas e atualizar o mapa com aproximadamente 500 metros do caminho que não estava catalogado. Mas estava muito fácil para ser verdade.

Saindo do carro, pergunto ao Heitor, organizador da prova:

– Quantos quilômetros de trilha vamos fazer?
– Ah, uns 500 metros só…
– E você acha que vamos demorar muito?
– Que nada, nem uma hora.

Que ingênuo sou! O ponto que tínhamos que alcançar era praticamente inacessível e, por todas as entradas de trilhas que tentávamos chegar, acabávamos em um beco sem saída. Tentávamos aproximadamente meia hora de “vara-mato” para ver se havia alguma continuação, até ter que desistir e voltar. Voltar, para novamente tentar na entrada seguinte.

Serra em Ponta Grossa

Serra em Ponta Grossa

Resultado: ficamos sete horas caminhando sem conseguir chegar ao bendito ponto que buscávamos e os 500 metros se transformaram em 21 quilômetros de trilhas fechadas e “vara-matos”.

Mas esse é o trabalho de quem organiza uma corrida de aventura, é preciso muito mais que vontade para fazer tudo dar certo e correr de acordo com planejado. Foi então que surgiu a ideia dessa pequena entrevista com o Heitor, para saber um pouco mais do seu trabalho como organizador de provas de aventura.

Heitor Canalle, proprietário e organizador da Gralha Azul Expedições

Heitor Canalle, proprietário e organizador da Gralha Azul Expedições

Acompanhe aí como foi a conversa:

MC: Qual é a parte mais difícil de se organizar uma corrida de aventura?
Heitor Canalle: A parte mais difícil é montar o esqueleto dela. Grande parte da organização se basea em encontrar um bom lugar para o remo, a partir daí se encaixam as outras modalidades. São várias e várias horas de estudo em mapas, cartas e no mato para encontrar esse lugar.
A partir daí, já dá pra começar a estruturar a prova, tal como a distância total, as modalidades que ela vai ter e por onde ela vai passar.

MC: E depois?
Heitor: Depois, tem toda a questão de validar o esqueleto. Ou seja, tem que ir no mato e ver se é possível remar no rio que escolhemos, se rola pedalar pelas trilhas e como vai ser o trekking. Além disso, tem que ir em todas as “bibocas” por onde o corredor pode por ventura se perder. Assim, tenho que fazer todo o percurso no mínimo 2 vezes.
Por exemplo, na prova havia um trekking de 30km mas, ao final, tive que percorrer mais de 100km. Somente uma “perna” dessa modalidade tive que fazer por quatro vezes. Para preparar a corrida com 145km eu percorri mais de 900km, sem contar o deslocamento até o lugar.

MC: E como ficam os mapas que são distribuídos na prova?
Heitor: Eu tenho que plotar praticamente todos os mapas, cada trilha e suas saídas, os mapas fornecidos pelo exército não são precisos o suficiente para a competição, assim tenho que refazer toda a carta, adicionar detalhes como vilas, trilhas não catalogadas, tipo de terreno, etc.

Exemplo de mapa não editado

Exemplo de mapa não editado

Exemplo de um mapa editado

Exemplo de um mapa editado

MC: E qual a diferença entre o o corredor e o organizador? Quais são as dificuldades de um e as facilidades do outro?
Heitor: O organizador faz tudo “no peito” para o competidor poder passar. Abre no facão a trilha, limpa ela, reativa trilhas não usadas. Ele vê cada detalhe no mapa para não ocorrer nada fora do esperado. A corrida tem que estar perfeita no dia da largada e, se durante a prova, alguém se perde, eu sei exatamente quais são os lugares que ele pode estar.
Já o corredor ganha tudo “mastigado”, ele tem que se preocupar somente em correr. A segurança do atleta já está garantida pelo trabalho que é feito antes da prova. No entanto, o atleta tem toda a pressão da competição, qualquer erro de percurso, qualquer desatenção no mapa, pode lhe custar a liderança.

MC: E por que ter tanto trabalho para organizar uma prova tão complexa como essa? O que você ganha com isso?
Heitor: Eu não faço isso por dinheiro, se tivesse esse foco, não estaria mais nessa atividade. Eu faço isso pelo amor à corrida de aventura. A corrida de aventura já me deu muito, muita experiência, muitas amizades, muitos conhecimentos. O que faço aqui é retribuir tudo isso que já ganhei. Quero que as pessoas possam ter as mesmas experiências que tive em todos esses anos de corridas de aventura. Não quero ganhar mais nada das corridas de aventura, o que eu queria ela já me deu!

MC: Qual o maior ganho de quem participa de uma corrida de aventura?
Heitor: As pessoas têm lugares maravilhosos no quintal de casa e não conhecem, vão pra Europa mas não conhecem uma floresta que fica a 10km de casa. O maior ganho de quem corre é realmente conhecer o lugar onde mora e reconhecer a beleza desse lugar. A corrida de aventura proporciona exatamente isso: remar e fazer canioning em belos rios, subir montanhas, pedalar por belas estradas rurais, etc. Além disso, outros aspectos muito importantes que se aprendem nas corridas de aventura são o respeito e o equilíbrio. Respeito e equilíbrio com a natureza, com a sua equipe e com o seu corpo.

MC: E para ganhar uma corrida, o que é necessário além do treino?
Heitor: Corrida de aventura não é somente uma corrida, é o todo e não somente um fator. Não depende somente do atleta e sim do todo: equipamento correto, condicionamento, equipe de apoio, navegação (discernimento intelectual de navegação), conhecimento da natureza e ainda ter um feeling muito bom para tomar as decisões certas. As pessoas muitas vezes deixam os sentimentos de lado e tentam trabalhar só no racional mas, na corrida de aventura, sentimento é muito importante!

E, depois disso, passei a respeitar ainda mais esse tipo de corrida, seus competidores e, principalmente, quem a organiza! Veja nos posts relacionados aqui abaixo como foram algumas das etapas da Gralha Azul!

About The Author

Mineiro radicado na cidade sorriso que, para quem não conhece, é Curitiba. Com 29 anos de idade, é formado em Engenharia Elétrica pela UFPR. Amante de tudo que envolve a natureza. Seus hobbies são: Paraquedismo, Montanhismo, Corrida, Ciclismo, Escalada (atualmente somente indoor) e principalmente viagens.

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