Por Erich Casagrande

Estamos em um albergue em La Paz, Bolívia. É janeiro e a temperatura de manhã cedo exige camisetas, casacos de lã comprados no dia anterior e uma jaqueta por cima. Não é para menos, estamos a 3.700 metros de altitude e a programação do dia promete temperaturas mais frias.

Somos quatro amigos que partiram de Florianópolis, mais dois paulistas que conhecemos na fronteira com a Bolívia, um mineiro, e duas meninas chilenas que encontramos em Santa Cruz de La Sierra, 4 mil metros de altitude antes. Os nove mochileiros se surpreenderam com a van que irá nos levar para a primeira montanha de nossas vidas. Uma Towner vermelha parecida com aquelas que encontramos vendendo cachorro quente e que, com o embarque de mais um brasileiro, a guia e o motorista, levou 12 pessoas como salsichas.

Nós vamos conhecer o Chacaltaya. Uma montanha que atinge os 5.421 metros de altitude, na Cordilheira do Andes, a 30 quilômetros de La Paz. No caminho, a guia comenta que nevou durante a noite no planalto e que não sabe até que ponto a Towner poderá nos levar.

Pico Chacaltaya

Saímos de La Paz, passamos pela EL alto, cidade que fica às margens da capital na região mais alta e fria, e seguimos pelo planalto vendo através da janelinha os picos nevados da Cordilheira dos Andes. Entre eles o Huayna Potossi, com 6.088 metros.

– Olha lá! – aponta a guia para um morro alto cheio de neve. – Acho que não vamos poder subir até o cume.

O Chacaltaya, olhando de longe, não parece ser muito íngrime. Está mais para um grande monte, de subida constante por uma estrada que leva até uma estação de esqui desativada a 5.300 metros. Sem neve é possível subir até esse ponto. Mas nós temos sorte e encontramos gelo logo aos 4.500 metros. Começa a aventura.

De van pela estrada que leva ao Chacaltaya

A estrada de terra está coberta de gelo. A Towner lotada patina na estrada estreita. E ao lado, um penhasco em direção ao vale que não consigo estimar exatamente o quanto é alto. Mas a sensação de perigo ao mesmo tempo que desperta cuidados é doce e viciante.

O motorista insiste em avançar, mas o gelo não permite. Precisamos descer e seguir a pé. Subindo pela estrada caminhamos cerca de uma hora até a estação. Nenhum de nós estava acostumado a caminhar nessas altitudes, o ar frio obrigava a escondermos nosso nariz e boca dentro das mantas e casacos. Não havíamos programado nenhuma montanha em nosso roteiro inicial. Com os pés molhados e gelados, ofegantes e com frio, mas em êxtase diante da paisagem e da neve, conseguimos chegar na estação.

Estação

O chá de coca nos revigorou, mas estávamos chateados. O tempo pirou, nevava e ventava lá fora. Não poderiámos seguir os 120 metros finais, que são uma subida com pedras soltas, até o cume. A ideia de não chegar ao topo não nos deixava nenhum um pouco felizes, era a nossa primeira montanha.

Até que, de repente, o tempo deu um brecha, como naqueles momentos que você lê em livros ou vê em filmes. Pela portas dos fundo era possível ver toda a subida até cume. Era a nossa chance. Agasalhamos-nos novamente e saímos determinados, sem pensar que a brecha podia ser pequena demais.

Alguns metros depois, do lado de fora da estação, o cume do Chacaltaya sumiu. Voltou a ficar encoberto. Era possível ver apenas alguns metros no meio da neblina. O vento frio soprava forte e pensei até em voltar, mas também não dava para ver a porta da estação. Entre dois pontos fora do alcance escolhemos o topo. Subimos. Devagar, mas subimos.

subida chacaltaya

Enfim o topo do Chacaltaya. Nossa primeira montanha com 5.421 metros de altitude. Ainda que não seja uma escalada com cordas e dias de preparação, a primeira montanha a gente não esquece, principalmente quando por algum momento você achou que não chegaria até o topo.

A neblina continuava densa, como o vento forte, não era possivel ver o planalto boliviano 1.500 metros abaixo. Sem paisagens deslumbrantes, mas com um sentimento de conquista e de desafio superado. Gritamos alto lá em cima como se estivéssemos no topo do mundo, era como nos sentíamos: no lugar mais alto que já estivemos.

De volta para estação, o romantismo acabou. Estávamos úmidos, pés e mãos gelados e com muito frio. Mas com mais uma história para contar durante muitas outras xícaras de chá de Coca que ainda vamos tomar.

Pico Chacaltaya

About The Author

mm

Um cara apaixonado que gosta de aventuras e de alturas. Escolheu jornalismo para poder perguntar sobre tudo, mesmo que nem sempre escute a resposta que quer. Mas antes de tudo, um aventureiro movido pela curiosidade, sempre à procura da próxima boa história para contar aos netinhos.

Related Posts

One Response

Leave a Reply

Your email address will not be published.