Não por acaso o Parque Nacional do Itatiaia (Parna Itatiaia) foi o berço do montanhismo brasileiro. Além das belas montanhas, há várias trilhas com diferentes níveis de dificuldades, paredões de escalada e até um campo escola de boulder. Em busca dessas aventuras, fui visitar o mais antigo parque nacional do Brasil, criado em 14 de junho 1937. O plano era passar três dias, mas fiquei uma semana inteira conhecendo as trilhas da região e, senão fosse pelo frio de – 4ºC, pensaria em morar lá sem problemas.

“Itatiaia”, em Tupi, significa “Pedras com Muitas Pontas”, o que faz todo sentido quando se observa o Pico das Agulhas Negras, localizado no estado do Rio de Janeiro com 2.792 metros de altitude. O parque é dividido em duas áreas: uma parte alta com altitude média de 2.400 metros, onde o frio não é opcional, e a parte baixa do parque com cachoeiras, piscinas naturais e lagos.

Descida do Pico das Agulhas Negras 2

Descida do Pico das Agulhas Negras 2

Férias e pé na estrada!

Peguei um avião até o Rio, fui direto para a rodoviária e consegui um ônibus para Itamonte (MG). Cheguei no início da estrada que leva ao parque às 17h, comprei queijo, mel e segui meu caminho rumo à portaria do parque, localizada a 17 km de onde estava.

Foram 3h de caminhada morro acima e no “escuro”. Escuro entre aspas, pois a lua me guiava, dispensando a lanterna. Só acendia ela quando levava algum susto com algum animal. Cheguei no km 12 da estrada e encontrei uma casa ocupada pelo exército.  Estava cansado e pedi abrigo. Recebi sopa, café, broa de fubá e um colchão para dormir. Excelente, era tudo o que precisava! A noite não foi muito agradável porque ventava muito e o frio batia na casa dos -3ºC.

Começo da Viagem

Começo da Viagem

Pernoite na casa ocupada pelo exército

Pernoite na casa ocupada pelo exército

O primeiro dia no Parque do Itatiaia

Acordei cedo, peguei uma carona até a entrada do parque e, com muito custo, consegui entrar. O exército estava em treinamento e o camping estava interditado. Corri para o acampamento, montei minha barraca e fui correndo para as Prateleiras – uma formação rochosa muito legal. Mas não pude subir até o cume, pois não tinha equipamento de segurança. Caminhei então pela região e fui para a pedra da maçã, onde é possível praticar um boulder bem legal.

Boulder no itatiaia

Boulder no itatiaia

Pico das Prateleiras

Pico das Prateleiras

Voltei à portaria e fui para o Morro do Couto. Uma trilha fácil e com um visual surpreendente para o Agulhas Negras. Fiquei lá no cume por pouco tempo porque a temperatura despencava e voltei para o acampamento. Estava exausto. Cheguei na minha barraca, fiz algo parecido como uma refeição e caí na “cama” (um isolante duro).

Morro do Couto

Morro do Couto

Pico das Agulhas Negras visto do Couto

Pico das Agulhas Negras visto do Couto

A dica do Bigode e a trilha perdida

No dia anterior tinha conversado com um dos médicos do exército, o Bigode, menos conhecido como Tenente Pedrosa. Trocamos bastante ideia a respeito de trilhas, viagens e ele até falou que já tinha visto o MundoCrux, que honra! Nessa conversa ele me passou a dica de que um grupo iria subir o Agulhas Negras no dia seguinte e, se eu fosse junto, conseguiria subir com eles para me ajudarem na segurança da escalada. À tarde, resolvi dar uma volta e o pessoal da portaria disse para eu ir à Pedra do Altar.

Indo Para os Ovos da Galinha

Indo Para os Ovos da Galinha

Segui em direção à trilha, mas acabei pegando a entrada errada e fui parar na Cachoeira do Aiuruoca, ao invés do Altar. A trilha fica estreita e chega a uns charcos com mato de mais de dois metros. Depois de uma hora e meia de vara-mato, resolvi voltar, pois o sol já estava se pondo. Voltei para o acampamento chateado, mas nada que um banho gelado no frio não resolva.

No dia seguinte a ideia era seguir as dicas do Bigode e esperar o primeiro grupo do exército subir e, quando o segundo fosse subir, iria junto fazer a trilha para e ver se eles poderiam me ajudar.

Agora sim!

Não, ainda não. Infelizmente não deu certo. Eu tinha a cadeirinha e o mosquetão, mas não tinha o bendito do cabo solteiro. Não poderiam me ajudar. O capitão que comandava a companhia sugeriu outra trilha chamada Pontão, que eu poderia utilizar para subir. Ao chegar em um paredão, consegui subir por uma corda que já estava posta pelo exército mas não consegui dar seguimento a escalada, pois simplesmente não achei seguro o suficiente. Desci então essa mesma corda e continuei subindo por uma fenda. Infelizmente cheguei em um beco sem saída e tive que voltar desapontado ao acampamento. Preparei meu almoço/jantar: Pão, queijo e linguiça defumada.

Subindo o Pico da Agulhas Negras

Subindo o Pico da Agulhas Negras

O Agulhas Negras

Agora vai! Acordei cedo e fui para a entrada do parque para arrumar algum guia que pudesse me acompanhar ao cume do Agulhas Negras, conheci o Sergio e, junto com um grupo de mais três pessoas, fomos escalar. Seguimos pela mesma trilha que eu tinha feito no dia anterior, só que dessa vez com alguém que conhecia.

Conquista do Pico das Agulhas Negras

Conquista do Pico das Agulhas Negras

Fizemos em 1h40min até o cume e ficamos por lá por mais de uma hora. O visual é muito bonito, pode-se ver toda a serra ao redor, a Serra Fina, o Sino e vários outros. Assinei o livro de cume, lanchamos e começamos a descida. Para chegar ao começo da trilha foi bem rápido e tranquilo. A trilha é técnica somente em alguns pontos, no geral é bem fácil. Cheguei ao riacho na sua base e me joguei na pequena piscina gelada para comemorar. Esse dia fui dormir tranquilo, com minha cabeça nas alturas.

Tentativa do Sino

Para fechar todas as montanhas do parque que estão entre as 10 mais altas do Brasil, precisava ir até o Pedra do Sino de Itatiaia. Já sabia que seria a mais difícil então comecei a caminhada cedo. Saí às 7h em direção à cachoeira do Aiuruoca. Nesse momento vi a bifurcação da trilha que leva a Pedra do Altar, aquela que não tinha visto dois dias antes. Não tive dúvidas e fui dar uma “passadinha” por lá. Em 40 minutos cheguei ao topo do Altar, uma montanha bem legal de estar. A paisagem mostrando todo o vale e o silêncio era impressionante.

Pedra do Altar Parna Itatiaia

Pedra do Altar Parna Itatiaia

Foco. Meu objetivo era a Pedra do Sino. Comecei descendo a montanha da Pedra do Altar em uma linha reta em direção à passagem que dá acesso à montanha da Pedra do Sino. Erro grave, tive que fazer um belo de um “vara-mato”. Cheguei à ponta da passagem com 3h45min de caminhada e vi a montanha muito distante. Levaria pelo menos mais 3h para chegar e 6h para voltar. Tive então que abortar mais essa vez. Não senti nenhum pouco de tristeza porque agora tenho uma excelente desculpa para voltar ao parque.

Caminho de volta

Depois de uma noite muito fria, em que não havia manta térmica que bastasse para me esquentar, decidi que só iniciaria a travessia da parte alta para a parte baixa do parque depois que o gelo da barraca derretesse. Eram nove horas quando comecei a caminhar em direção à Itatiaia.

Dia Frio no PARNA ITATIAIA

Dia Frio no PARNA ITATIAIA

 

A travessia é bem longa, com 21 km de descida passando por todo tipo de vegetação. Mesma não tendo grande conhecimento sobre biomas, deu para perceber as transições de campos de altitude para uma espécie de serrado e depois para mata atlântica. As primeiras 2h de trilha são bem bonitas, pode-se ver a paisagem com as montanhas. Em seguida, a mata fecha e não se vê mais horizontes distantes. Após quase sete horas de caminhada e umas cinco perdidas, cheguei à parte baixa do parque.

Travessia Ruy Braga

Travessia Ruy Braga

Travessia Ruy Braga. - Trilha 2

Travessia Ruy Braga. – Trilha 2

Estava exausto. Consegui carona com o segurança do parque até um ponto de ônibus e parei em uma pousada, afinal eu merecia dormir em um colchão.

A despedida

Para fechar, no dia seguinte, fui visitar a parte baixa do parque. Mas isso só depois de dormir 15 horas seguidas. Essa parte é bem tranquila, pode-se conhecer em pouco tempo. Como saí somente ao meio dia, tive que escolher algumas atrações. Foram elas as cachoeiras do Véu de Noiva, do Itaporaní, o Lago Azul e o Mirante do Último Adeus. Esse último deu até um aperto no peito. Lembrar de todos os dias que tinha passado no parque e de tudo que tinha visto.

PARNA Itatiaia - Cachoeira do Veu de Noiva

PARNA Itatiaia – Cachoeira do Veu de Noiva

PARNA Itatiaia - Cachoeira do Itaporani

PARNA Itatiaia – Cachoeira do Itaporani

Informações

Localização: Parte alta: Município de Itamonte (MG) no KM 0 da BR-354 (ônibus da Cidade do Aço) / Parte baixa: Município de Itatiaia

Estrutura: A parte baixa tem camping e um abrigo chamado Rebouças.

Preços: a entrada é R$ 10,00 mais R$ 1,10 por dia Camping é R$ 6,00 e o abrigo é R$ 10,00.

Mapas da travessia: no ICMBio

GPS: no Rumos.net

About The Author

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Mineiro radicado na cidade sorriso que, para quem não conhece, é Curitiba. Com 29 anos de idade, é formado em Engenharia Elétrica pela UFPR. Amante de tudo que envolve a natureza. Seus hobbies são: Paraquedismo, Montanhismo, Corrida, Ciclismo, Escalada (atualmente somente indoor) e principalmente viagens.

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8 Responses

  1. Roniel Fonseca

    Pô piá nem parece que mora em Curitiba, ta com medo do frio? que mochileiro és tu? kkkkkkkkk! belo role, deu vontade de partir pra la! parabens

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  2. Edna soares

    Aos meus 17 anos,escalei o pico das agulhas negras e as prateleiras. Eu Sérgio meu namorado e um grupo de amigos. Nunca esquecerei, hoje com 56 anos, tenho muita saudade….

    Responder

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