O Aconcágua é o ponto mais alto da América com 6.962 msnm, localizado na província de Mendoza na Argentina. A ascensão dessa montanha não é tecnicamente difícil e sua rota é bem demarcada (quando não há nevasca, nevoeiro, chuva, etc). No entanto, a parte física conta bastante, visto que a essa altura o ar é extremamente rarefeito. Sua conquista foi realizada por Matthias Zurbriggen em janeiro de 1897 e desde então vem sendo procurada por montanhistas do mundo todo.


Visualizar Aconcagua em um mapa maior. Fonte: Altamontanha

Nessa matéria vamos mostrar o relato do Luis Cesar Oliveira, que conquistou essa montanha em Janeiro de 2012, e todo o seu planejamento. Isso leva a ressaltar a questão da palavra AVENTUREIRO. Aventureiro não é louco, não é inconsequente. Aventureiro planeja, pensa, calcula os riscos e treina, muito. Mas principalmente, o aventureiro FAZ!

 

Informações:

  • Altitude: 6.962 msnm
  • Proeminência: 6.962 msnm
  • Melhor período de escalada: no verão
  • Temperatura: pode chegar a -30ºC
  • Localização: Mendoza, Argentina
  • GPS Track: no Altamontanha
  • Rotas: Existem diversas rotas de ascensão do Aconcágua, mas basicamente são três: A Normal (a que o Luis fez), Glaciar dos Polacos e a Parede Sul.

Rota Normal Aconcágua

Fonte: http://www.aconcaguaexpeditions.com

E como está o Aconcágua agora?

Essa é uma foto do Aconcágua que se atualiza automaticamente a cada 3 minutos, funciona das 3:00 as 23:00 mas está temporariamente offline.

Visão do Aconcágua Online
Fonte: Aconcaguanow

Dados da Expedição

Após mais de um ano de planejamento minucioso, Luis Cesar decidiu fazer essa aventura na companhia de Paulo Saczuke e, com o patrocínio da Altiseg, Snake e Tempo Viver, levaram o projeto adiante. Planejou, detalhou e planificou tudo do seu projeto. Sabendo, por exemplo, exatamente quanto de peso (gramas) levaria em cada dia da expedição.

Veja aqui todas as informações disponibilizadas por ele para se elaborar uma expedição como essa: Aconcágua – 2012.

Foto dirada durante a decida do Cerro Bonette com o aconcagua ao fundo

Data de saída do Brasil 26/12/2011
Data de retorno ao Brasil 14/01/2012
Período de dias de viagem 20
Período de dias na Monatanha 16 dias
Nº de integrantes 2
Rota e ser escalada – Face Noroeste Normal
Trajeto aprox  de caminhada em Km –  Ida e votla 85Km
Tipo de Ascensão autoguiada
Desnível vertical de ascenção ( Punta Incas / Cume ) 4.262mv
Período de preparação Física  01/01/2011  á  22/12/2011 11 meses
Escaladores Luis Cesar de Oliveira
Paulo Nelson Saczuk

Plaza Mulas no dia seguinte depois de ter feito o cume ja se preparando para ir embora.

Relato

Aconcágua, 6.962msnm, a montanha mais alta das Américas. O sonho de tentar chegar até seu cume, é o que move escaladores de todas as partes do mundo até a Argentina.

Para a expedição Aconcágua 2011/2012, algum tempo se passou até que fosse possível por em prática o inicio da preparação para esta tão sonhada escalada. Os treinamentos começaram em janeiro de 2010, foram 11 mês de preparação física, só assim seria possível conseguir o condicionamento físico necessário para essa empreitada. Fora a preparação física, tivemos que organizar toda a parte logística, como compra de equipamentos, preparação do cronograma da viagem, enfim, tudo o que envolve uma expedição para uma montanha deste porte. Optamos por escalar esta montanha sem contratar os serviços das empresas que atuam nesta área e oferecem a seus clientes barracas montadas durante toda a expedição, café da manhã, almoço e janta, guias e porteadores para suas mochilas. A ideia era realizar a expedição por conta própria. Todos os detalhes foram exaustivamente repassados e analisados para que nada desse errado.

Entrada do parque

Por fim, dia 26/12/2012, já com as malas prontas e mais de 120 kg de equipamento separado, partimos rumo a Argentina. Em Mendonza, fizemos a compra dos permisos (autorização para entrar no parque e escalar a montanha) na secretaria de Turismo. Uma permissão para permanecer 20 dias dentro do parque, com o tempo máximo permitido, custa U$ 700,00.
Partimos para Puente del Inca, via que corta o parque.
Puente del Inca

Chegando lá, foi feita a separação de todo material que seria despachado por duas mulas até o acampamento base e a preparação da mochila que seria levada nas costas para caminhada ate Plaza Mulas. No dia seguinte, já em Harcones, fizemos o chek-in na entrada do parque. Dali até o primeiro acampamento de aproximação da base da montanha, chamado de Confluência (3.400 msnm), foram 4 horas de caminhada com as mochilas pesando em torno de 30kg, pois tivemos que levar provisões para 3 dias.

Provisões em mulas

Seguindo o plano de aclimatação, a permanência neste acampamento seria de três dias. No segundo dia, fizemos uma caminhada até a base da Parede Sul do Aconcágua (4.200 msnm) para aclimatar. 6h de caminhada ida e volta.

Vista de uma Montanha ao lado do crero Bonette

O terceiro dia foi dedicado ao descanso e em seguida a partida para o último trecho até o acampamento de Plaza Mulas (4.300 msnm), já na base da montanha. A caminhada deste dia foi de 15 km sob um sol forte. Um obstáculo a parte a ser vencido nesse dia foi, ao final da caminhada, a Costa Brava, que é uma encosta bem íngreme. Com o cansaço da caminha e as mochilas pesadas, foi ainda mais difícil superar esta subida.

Chegada no acampamento Plaza Mula com o cerro cuerno ao fundo

Às 19h do dia 31/12, depois de 12h de caminhada, alcançamos o acampamento de Plaza de Mulas. Cansados, e já sentido o ar rarefeito, fizemos a montagem das duas barracas. Uma que seria usada como depósito e a outra como dormitório e cozinha. Todo esse trabalho levou 2h para ser concluído. A ideia de comemorar a passagem do ano com muita festa acabou não acontecendo, pois estávamos tão cansados que dormimos logo após organizar todos os equipamentos.

Acampamento Plaza Mulas a noite
Glaciar próximo ao acampamento Plaza Mulas

No dia seguinte, seguindo os planos de aclimatação, foi realizada uma escalada a uma montanha de 5.050 msnm, próxima ao Aconcágua, chamada Cerro Bonette.  Em seguida, foi dado início aos porteios de material para os acampamentos de altitude (nome dado quando se leva parte dos materiais que serão usados nas partes altas da montanha e se retorna para base para dormir). Para escalar o Aconcágua há três acampamentos na montanha antes do ataque ao cume. Partindo do acampamento base de Plaza Mulas, são eles:

  • Plaza Canadá – 4.900 msnm
  • Nido del Condores – 5.500 msnm
  • Cólera – 6.100 msnm

A temporada de escalada deste ano prometia ser movimentada, pois já havia muitas barracas no acampamento base. O que me chamou mais a atenção foi a quantidade de lixo gerada no local que é dominado pelas empresas que vendem a seus clientes as expedições para se chegar ao cume. Em Plaza Mulas, 90% dos escaladores que lá estavam, tinham pagado a essas empresas para os levarem até o cume. Estes mesmos clientes não carregam e nem montam suas barracas, não cozinham e nem transportam sua comida. Os carregadores destas empresas fazem tudo para eles, só levam nas costas suas roupas e saco de dormir. O resto, os guias levam montanha acima. Em todos os três acampamentos de altitude na montanha, quase não se achava local para montar barracas pois as empresas deixam as suas montadas durante toda a temporada no local, só aguardando seus clientes chegarem.

Acamapamento confluencia

As nevascas foram um incômodo constante para nossa expedição, durante todo o período de escalada na montanha. Fazendo com que as caminhadas nas partes mais íngremes da montanha fossem bem mais difíceis e cansativas que o normal.

Plaza Mulas apos uma nevasca

Plaza Mulas apos nevasca

Plaza Mulas apos nevasca (2)

Eu e meu companheiro de escalada, Paulo Nelson Saczuk, chegamos ao acampamento Cólera (6.100 msnm) – o último antes do ataque ao cume – no dia 10/01. O vento soprava com muita força, dificultado ainda mais a montagem da barraca, e ainda tinha o frio que congelava os dedos sempre que se precisava retirar as luvas fora da barraca. Já com o acampamento montado e tudo organizado dentro da barraca, foi hora de descansarmos um pouco e nos prepararmos. O ataque ao cume seria de madrugada, dali a poucas horas.

Acampamento Plaza Canada com o cerro cuerno ao fundo

Acampamento Plaza Canada

Foto tirada durante a subida definitiva para o acampamento Nido del Condores

Às 3h da manhã, o vento não dava trégua e soprava com toda força. Às 4h, tudo já estava pronto para o início da escalada final, rumo ao topo da montanha. Deixando o nervosismo de lado e iniciamos a caminhada que deveria durar 10h até o cume da montanha. Nessa altura o vento já havia diminuído um pouco e já se podia perceber alguns clarões do dia aparecendo, tornado a baixa temperatura bem mais suportável.
As primeira 3 horas de caminhada foram bastante puxadas, com alguns trechos bem escorregadios. Paulo e eu íamos revezando, hora uma ía abrindo caminho montanha acima, hora o outro. Às 8h chegamos ao que restou do refúgio de Independência, que hoje está destruído. Neste ponto, meu companheiro estava sofrendo com o frio que congelava seus dedos dos pés e o impossibilitava de continuar a escalada. Depois de analisar sua situação, resolveu que o melhor seria retornar para o acampamento Cólera.

Ruinas do acampamento de Independencia neste ponto meu parceiro retornou para Colera desistindo da escalada

Eu fique ali por mais uns 30 minutos até recompor as forças e seguir a escalda, agora sem meu companheiro, com o qual passei a manter contato por rádio.

Depois de vencer um trecho de subida mais íngreme, e com muita neve, chamado de Portezuelo del Viento, foi possível avistar a Gran Acarreo e logo mais à frente o início da Canaleta. Uma encosta muito inclinada, onde a maioria dos escaladores desiste da escalada pelo seu alto grau de dificuldade. Após vencer todos esses obstáculos e dificuldades, consegui alcançar o cume do Aconcágua, às 14h30 do dia 11/01/2012.

Dia de escalda ao cume neste ponto estava no meio da travessia Gran Acarreo

Com um céu azul e quase sem nenhum vento, eu acabava de conquistar metade da escalada. Afinal, o cume é só 50% dessa conquista, havia ainda a volta para o acampamento. Após uma hora no topo das Américas, e de ter tirado várias fotos com as bandeiras dos nossos patrocinadores Altiseg, Snake e Tempo de Viver, era chegado o momento da descida. Organizei minhas coisas, coloquei-as na mochila e inicie a decida. Depois de 5 minutos de caminhada montanha abaixo, olhei para cima e já não era mais possível ver o cume. As nuvens haviam coberto tudo e o vento que a pouco quase não podia se sentir, soprava com raiva, mostrando como o clima nessa montanha muda muito rápido.

Proximo do cume logo abaixo o filo de guanacos e a Canaleta

Já na decida vista da travessia Gran Acarreo e o cume totalmente encoberto pela tempestade

A decida de volta pela Canaleta foi bem difícil pois, com a minha pressa de descer, acabei levando vários tombos neste trecho mais íngreme. A neve muito fofa, fez com que meu stik de caminhada se quebrasse.
Após 1h, cheguei a travessia da Gran Acarrero. Ali o vento já havia diminuído mas, olhando para as partes mais altas da montanha, dava para ver que as coisas lá em cima estavam bem complicadas. A caminhada até o acampamento Cólera levou mais de 4h. Já no conforto da barraca foi possível me alimentar e hidratar. No dia seguinte Paulo e eu desmontamos o acampamento e iniciamos a decida até Plaza Mula. Que durou, acreditem, 10h! Com o cansaço do ataque ao cume, aliado ao peso das mochilas, foi a parte mais difícil da escalada.
Parede Sul visto do cume do aconcagua

Cume do Aconcagua

No dia seguinte, já em Plaza Mulas, com a sensação de dever cumprido, começou a descida para Puente Del Inca. O trajeto de volta até Harcones foi vencido após 6h caminhada.

Agora, passado algum tempo da conquista, o gostinho da alta montanha já está de volta. E já planejo a próxima expedição, agora para uma montanha de 8.000 msnm. Que bons ventos nos guiem.

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Colaboradores que agregam, com sua bagagem de conhecimento e aventura, conteúdo ao site MundoCrux.

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12 Responses

  1. Marcio Arizon

    Fala rapaziada, tudo certo com vocês, vi agora o post, não sei se vão lembrar mas nos encontramos em Plaza de Mulas, acho até que a foto, onde está um dentro da barra e outro fora, foi eu que tirei de vocês em Plaza quando retornaram, forte abraço.

    Responder
  2. Alan Pessoa

    Até agora foi o melhor post sobre montanhismo (especificamente o monte Aconcágua) que eu consegui encontrar na internet. Parabéns pela dedicação em chegar ao cume, por ter tido o trabalho de escrever sua experiência nesta página e pela humildade de compartilhar detalhadamente sua história.

    Responder
  3. Paulo Henrique Oliveira

    Cara, estou pesquisando a tempo relatos sobre o Aconcagua, gostei pra caramba do seu! Bem direto. Mandei uma mensagem pelo site. Estou indo la nesta proxima temporada, será que poderia entrar em contato contigo para perguntar algumas coisas?
    Abraços

    Responder

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