O Yosemite é, sem dúvida, um cenário clássico do esportes de aventura. O Parque Nacional do EUA, localizado na costa oeste do país e citado inúmeras vezes aqui no MundoCrux, chama mais uma vez nossa atenção. Desta vez, como cenário e estrela principal do documentário Valley Uprising.

Produzido pela Sender Films, o longa-metragem é promessa de diversão e muita história sobre os precursores e atuais atletas de Yosemite. Confira o texto traduzido por nós diretamente do site oficial.
Abre aspas…

Valley Uprising

“O sonho americano” – uma frase que evoca imagens de carros novos, gramados bem aparados e planos de aposentadoria indexados por ações. Mas, para além destas ambições materiais, fica um tipo muito diferente do sonho americano: aquele que se esforça para deixar de lado a segurança e o conforto da vida moderna e buscar a aventura de afirmação da vida em magníficos lugares ao ar livre. E em nenhum outro lugar esse sonho se manifestou mais fortemente do que no Parque Nacional de Yosemite, onde (no espírito de John Muir e Jack Kerouac) gerações de beatniks e loucos abandonaram a sociedade para assumir uma vida de escalada nas maciças paredes de granito.

Nos acampamentos sombreados no fundo do vale, os alpinistas esculpiram um estilo de vida contracultural como reviradores de lixo e com festas que entraram em confronto com os valores conservadores do Serviço Nacional de Parques. E nas paredes, geração após geração, empurraram os limites da escalada, competindo entre si pela supremacia das falésias de Yosemite.
Valley Uprising é o fascinante e inesquecível conto desta corajosa tradição de escalada em  Yosemite Valley: meio século de luta contra as leis da gravidade – e as leis da terra.

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A história selvagem dos Cliffhanger’s de Yosemite

Em Yosemite Valley, Califórnia – morada de imponentes paredes de granito e o mais famoso parque nacional do mundo – um drama épico de rivalidade, aventura e rebeldia se desenrolou ao longo do último meio século.

Ele começou na América, no final da década de 1950. Enquanto poetas beatniks chacoalhavam a conformidade sufocante do país em clubes de jazz, outro grupo de jovens barbudos estava partindo para as montanhas de Sierra Nevada empenhados em quebrar o molde à sua ousada maneira.
Trocando o conforto da classe média por uma chance de tornarem-se lendas, se propuseram a fazer o impensável: escalar os muros de 3.000 pés absolutos de Yosemite.

Na vanguarda desse bando subversivo de aventureiros, estavam dois grandes rivais: Royal Robbins, imperioso como seu nome sugere, que idolatrava John Muir e comparou suas escaladas à sinfonias Beethoven; e Warren Harding, um sujeito rabugento, beberrão e prepotente, que rumou para o vale em um hot rod com mulheres e vinho a tiracolo. Os dois tinham pouco em comum além de sua ambição de ser ‘O Alpinista Rei do Yosemite’.

Quando Robbins fez a histórica primeira ascensão do Half Dome, Harding respondeu rápida e audaciosamente com uma jornada de 30 dias até o The Nose do El Capitan. Estes foram os primeiros tiros disparados em um jogo perigoso de superioridade que empurrou os limites do reino vertical mais longe do que qualquer um pensava ser possível.

Mas a rivalidade Harding vs. Robbins foi apenas o começo. Nas décadas seguintes, jovens aventureiros impetuosos continuariam a desprezar a sociedade e migrar para as paredes altas e solitárias de Yosemite Valley, abraçando o estilo de vida vagabundo e colocando suas vidas nas cordas com subidas cada vez mais difíceis e ousadas. Até hoje, eles lutam para gravar seus nomes no panteão Yosemite.

Warren Harding, Wayne Merry and George Whitmore

Através de um acervo fotográfico animado digitalmente, com filmagens antigas e atuais, e entrevistas com grandes nomes do Yosemite – desde o fundador das roupas Patagonia, Yvon Chouinard, ao aventureiro atual Dean Potter – Valley Uprising conta a história de homens e mulheres que romperam com as convenções e redefiniram os limites da possibilidade humana no parque nacional mais lendário da América.
A história de Yosemite, como registrado nos livros de história, capturadas em filme e falado em volta da fogueira, pode ser nitidamente dividida em três distintas mas interligadas gerações que, como se escrita para a tela, formam o arco narrativo do nosso filme.

Parte 1 – A Era de Ouro

Foi nestes primeiros dias que escaladores, como o sisudo filósofo Royal Robbins, o beberrão rebelde Warren Harding e o futuro empreendedor visionário Yvon Chouinard, sonharam com a até então incogitável ascenção às paredes verticais do Vale. Beatniks (jovens subversivos dos anos 50), maltrapilhos e livres-pensadores, esta geração de alpinistas escapou do conformismo do pós-guerra para a liberdade de Yosemite, onde forjaram uma revolução na escalada e também um modo de vida. Mas os seus comportamentos boêmios ao ar livre guardavam um extremo senso de competição. Entre os escaladores pioneiros de Yosemite, a camaradagem muitas vezes andou de mãos dadas com uma feroz disputa pela superioridade, e a contracultura descontraída foi sobrepujada por uma quase maníaca dedicação ao seu ofício. Não por coincidência talvez, que muitos desses precursores alpinistas tornaram-se empresários de sucesso e líderes em seus campos.

Uma década de disputa acirrada de primeiras ascensões entre Robbins e Harding gerou muitas das escaladas clássicas da época e culminou em uma fatídica tentativa, intitulada “Dawn Wall”, ao longo dos 3.000 pés da última grande muralha não escalada, o El Capitan. Robbins almejava este prêmio, mas foi contido pelo medo. Harding, determinado a superar o seu rival de uma vez por todas, finalmente montou seu equipamento, chamou os jornais, e começou a subida em 1971. Durante um mês, Harding e seu parceiro lentamente fizeram o seu caminho pela parede, gerando um frenesi sem precedentes na mídia sobre a escalada em Yosemite. Depois de três semanas de subida, um grupo de alpinistas supostamente preocupado com o destino da equipe tentou um audacioso resgate vertical que foi recusado por Harding, que os amaldiçoou e continuou sua escalada. Ao alcançar o cume, o exausto Harding foi homenageado como um herói e convidado pelos principais canais de TV para participar de programas ‘talk show’.

Warren Harding no “Dawn Wall” – 1970

Mas o purista Robbins, enfurecido pelo uso excessivo de parafusos permanentes na parede (e, sem dúvida, impulsionado pela concorrência), lamentou a nova escalada, definindo-a como “uma mancha na paisagem” e se propôs a apagá-la, cortando fora todos os equipamentos que Harding meticulosamente havia colocado durante a subida. A disputa tantas fez que acabou manchando os nomes de ambos. Assim como as manchetes, o confronto dos dois titãs do vale se apagou com o tempo.
Um novo grupo mais jovem de futuras estrelas estava prestes a assumir.

Parte 2 – Os Mestres da Rocha

Quando a glória da Idade de Ouro morreu repentinamente em 1970 com o fiasco de “Dawn Wall”, o que surgiu em seu lugar foi muito diferente: uma nova e impetuosa geração liderada pelo gigante hippie bigodudo Jim Bridwell. Inspirados por seus antecessores, mas determinados a superar o seu legado, os escaladores dos anos 70 foram audaciosos na personalidade e na visão. Eles investiram seus talentos na “escalada livre”. Cadenaram as mega-rotas estabelecidas durante a Era de Ouro sem o uso de qualquer material ou meios artificiais, utilizando apenas a força de seus braços.

Nesse momento, testemunhamos as mudanças dessa nova geração de Yosemite. Conforme o idealismo dos anos 60 decai, uma nova e barulhenta era emerge, marcada por sexo, noitadas, batalhas violentas com autoridades do parque e anúncios de TV com os lendários “Stonemasters” posando para comerciais de lâminas de barbear. Pra completar, um avião de contrabando de drogas cai no vale e inicia uma ‘corrida do ouro’ de comércio ilegal para os empobrecidos escaladores locais. Histórias sombrias como a de John Yablonski – o escalador de habilidade lendária que enganou a morte nas paredes antes de tirar sua própria vida com um revólver – mostravam que nem todas as lendas de Yosemite poderiam ajustar-se bem à vida além da escalada.
Na mesma medida em que brilhavam, os rock-star “Stonemasters” se apagavam em meio a drogas, suicídios e sonhos desfeitos.

Parte 3 – Os Macacos

Autodenominando-se “Stone monkeys” (macacos da pedra), um moderno grupo fraterno assumiu o manto da tribo de escaladores do Yosemite, determinados a deixarem sua própria marca elevando seus feitos de aventura a um nível que pensava-se ser impossível.

Exatamente 50 anos depois de Royal Robbins fazer a primeira ascensão do Half Dome ao longo de vários dias, Alex Honnold – um jovem tímido e desengonçado, com vinte e poucos anos e vivendo em uma van – fez a subida sozinho, sem corda, e em menos de três horas completou a maior escalada em rocha na história do esporte. Honnold é apenas um de vários escaladores da atual cena de escalada de Yosemite. A vanguarda da escalada se tornou uma coisa verdadeiramente surpreendente de se ver. Highliners atravessam os topos dos penhascos sem rede de segurança e, clandestinamente, BASE Jumpers saltam das formações maciças com seus paraquedas.

Escaladores de hoje tomaram com orgulho até o padrão de estilo de vida “saco de sujeira” da autoria de Robbins e Bridwell, um estilo de vida ainda mais conflitante com o consumismo americano desenfreado e as regulamentações cada vez mais rígidas do serviço parque. Muitos apontam a recente expulsão de Chongo Chuck – o sem-teto alpinista/filósofo que vagou livremente no Vale por anos – como um ressurgimento do zelo regulatório por parte dos funcionários do Parque Nacional, visto como uma antítese ao “espírito Yosemite”. Ao longo dos anos, as tensões entre montanhistas e funcionários do parque em alguns aspectos melhoraram – com guardas-florestais e alpinistas trabalhando lado-a-lado em operações de limpeza e resgates de alto ângulo no parque – por outro lado, nunca foram tão tensos, já que muitos escaladores iniciaram a prática de BASE Jump, proibido em todos os parques nacionais.

BASE Jump no Yosemite

Ao longo de anos e entre tantas histórias, Yosemite continua sendo “solo sagrado” para um grupo bastante singular de pessoas excêntricas e destemidas.
Em um dia qualquer, no Camp4, é possível encontrar montanhistas chineses mirando o El Captain (inspirados por imagens de Robbins e Harding), ambientalistas radicais praticando técnicas em corda para a sua próxima grande “ação”, e alguns dos mais talentosos e corajosos atletas da Terra, escalando coisas que os “Grandes” por gerações nunca sonharam em fazer.

Extraído e traduzido por Daniel, do original “About The Film” em http://www.valleyuprising.com/.

About The Author

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Daniel (ou Dalai) tem três profissões, mas o que gosta mesmo é de atividade física. Dedica-se quase todo o tempo às atividades esportivas indoor e outdoor. Corridas, pedaladas, escaladas e, especialmente, mergulhos.. de todos os tipos.

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