Sempre fui fascinado por montanhas desde que me conheço como trilheiro, aventureiro, etc. A minha vontade de conhecer um pico nevado nunca saiu da minha cabeça e na viagem à Bolivía e Peru, pude conhecer a beleza e imponência de um com mais de 5000 metros de altitude.

Como acontece em todas as minhas viagens prefiro não planejar muito, assim fico à mercê dos acontecimentos mas de uma forma boa. Havia começado em Santa Cruz de la Sierra e passado quase 15 dias conhecendo a Bolívia. No dia 12 de setembro havia agendado a Trilha Inca para conhecer Machu Picchu. Após isso não tinha nenhum plano para os 10 dias restantes de viagem.

Foi justamente na Trilha Inca que conheci o Tiago e sua namorada. Ele acabara de voltar da Cordillera Blanca, no Peru e me disse totalmente empolgado que eu tinha que conhecer essa região chamada Huaraz. Pela sua descrição, foi amor a primeira vista pelo lugar, apesar de que, inicialmente platônico.

Huaraz e as montanhas

Huaraz e as montanhas

Planejamento da viagem atualizado vamos à montanha

Assim que acabei a trilha Inca, fui direto para Huaraz, na Cordilheira Branca. Conforme prometido, o lugar é espetacular, a cidade respira montanha e parece que tudo por lá gira em torno disso. Havia conhecido dois brasileiros na rodoviária (Zé e Leonardo) que tinham o mesmo intuito que eu: escalar! Assim, para não perder tempo, fomos a uma agência de turismo e agendamos com o guia a nossa montanha. A escolhida foi Vallunaraju, com 5686msnm e três dias de expedição necessários para escalá-la.

Vallunaraju

Vallunaraju

As preparações foram rápidas e no dia seguinte saímos cedo porque tínhamos um longo dia de caminhada. Chegamos à base da montanha e já começamos uma longa subida em trilha íngreme. Cheguei ao acampamento bem cansado, mas preparado para o dia seguinte. Fazia muito frio e começou a nevar. Neve, que alegria! Era a primeira vez que iria escalar um pico com mais 5000 msnm e de quebra a primeira vez que via a neve! Fiz uma bola gigante e joguei na primeira pessoa que vi na frente. Meu guia não ficou feliz com minha atitude mas entendeu minha felicidade.

Neve pela primeira vez

Neve pela primeira vez

O grande dia (ou nem tanto)

Acordamos às duas da manhã, a barraca estava coberta de neve. O Zé, já no dia anterior se mostrava muito cansado, a altitude o estava afetando muito. Rapidamente começamos a subida, e pouco tempo depois já estávamos no glaciar – parte da montanha bastante perigosa onde anos de neve compactada formam o solo onde se vai caminhar. Praticamente todo o Vallunaraju é constituído de glaciares. Estava totalmente equipado para subir a maioria das altas montanhas: capacete, roupa impermeável, cadeirinha, mosquetão, piolet e crampon e muita vontade.

Glaciar no Vallunaraju

Glaciar no Vallunaraju

Equipado para a montanha 2

Equipado para a montanha

Andar na neve não é nada fácil, como havia nevado muito na noite anterior, tudo estava um pouco mais difícil. A cada três passos que dávamos, um era “desperdiçado” para compactar o solo. Com esse nível de esforço muito forte, nosso ritmo estava diminuindo consideravelmente e às 6:30 o Zé desistiu. Como estávamos em cima de um glaciar e tínhamos somente um guia, tivemos todos que voltar. Imagine meu nível de frustração! Não podia acreditar.

Voltando montanha abaixo Vallunaraju

Voltando montanha abaixo Vallunaraju

Desistir nem pensar

Demoramos duas horas para retornar. Quando chegamos ao acampamento base, olhei nos olhos do guia, ele já sabia o que eu queria. Não iria desistir tão fácil e ele sabia disso. Nem precisei falar nada, ele começou a tirar as coisas da mochila e me disse: “Precisamos caminhar rápidos e leves. Tire da mochila tudo que não for precisar. Temos até o meio dia no máximo, porque depois começam as avalanches.”

Nunca fiz tanto esforço na minha vida como fiz nesse dia. Em 45 minutos estávamos no mesmo ponto em que havíamos desistido três horas antes. Com mais 45 minutos de pura determinação, fizemos uma segunda parada. Eu estava extremamente cansado e o cume estava a apenas mais 20 minutos de subida. Meu corpo já não respondia mais minhas súplicas para continuar. A inclinação era mais de 60 graus e cada passo que dava, tinha que descansar muito tempo por pura exaustão.

Minha cabeça estava a mil com a decisão que viria em seguida e que era inevitável. Sei que uma decisão já está tomada mesmo antes de tomarmos consciência dela, tive apenas o trabalho de reconhecê-la. Assim, aos 5500msnm, faltando menos de 200 metros, tive que desistir da minha primeira montanha, com muito pesar e muita tristeza. Pelo menos esgotei até o último pingo de energia que tinha.

Frio no Vallunaraju

Frio no Vallunaraju

Descemos o Vallunaraju fazendo algo como um “esquibunda” e rapidamente chegamos ao acampamento. Sábia decisão, o tempo fechou e ouvimos avalanches logo após o nosso retorno.

Mais um ensinamento aprendido, ficou a promessa de voltar a essa maravilhosa região e finalmente conquistar essa montanha fascinante.

About The Author

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Mineiro radicado na cidade sorriso que, para quem não conhece, é Curitiba. Com 29 anos de idade, é formado em Engenharia Elétrica pela UFPR. Amante de tudo que envolve a natureza. Seus hobbies são: Paraquedismo, Montanhismo, Corrida, Ciclismo, Escalada (atualmente somente indoor) e principalmente viagens.

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3 Responses

  1. Tiago Cortez

    Meu c……, Mineiro, não nos conhecemos mas me identifiquei muitíssimo com sua determinação

    Provavelmente tenho muito menos preparo para esse tipo de aventuro do que você, menos experiência quem sabe, mas o "sangue nos olhos"…. Isso é viver. Até a última gota de suor.

    Parabéns!

    Responder
    • Marcos Mineiro

      Muito obrigado Tiago! Me lembro até hj do esforço daquele dia. Teria ficado muito frustrado se não tivesse "desistido por conta própria"…
      É isso aí, até a última gota de suor! Quem sabe ano que vem volte para lá. Te aviso! hehehheheh
      Abraço e obrigado mais uma vez!

      Responder
  2. Vanessa Almeida

    Eu acabei de voltar de Huaraz e o Vallunaraju foi a primeira montanha nevada que fiz também! Fui abençoada com um tempo maravilhoso e sem duvida foi a experiência mais alucinante da minha vida até hoje! Sinto que ainda estou lá…O cume é um sonho ( pelo menos pra mim que nunca tinha ido em um nevado antes 🙂 e desde que voltei só penso onde será a próxima tentativa! Amei ler seu relato agora! Que saudade!!! Boas escaladas/caminhadas/montanhas nevadas pra você!

    Responder

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